sábado, dezembro 09, 2006

noin rivera

o carrossel ainda roda
gigante
sob o céu a brincar meus pés
de quintal por onde caminham
formigas, besouros, gafanhotos
e caem flores do jambeiro
alumiando nuvens nas quais desenhava
um mundo que não tinha medo de sorrir
(menino descobrindo poesia)

domingo, novembro 19, 2006

domingo, novembro 12, 2006


abrindo o baú
deixaram estrelas de fora
naquele amanhã desfigurado
onde era tudo sofreguidão

segunda-feira, outubro 30, 2006


a janela do meu quarto
guardava as cores o céu
sempre que anjos desciam
e comigo brincavam
do que a gente chamava
FELICIDADE

segunda-feira, outubro 23, 2006


assobiava memórias baldias
num canto de quarto
solitário demais
para ser notado
(era tarde pra descobrir,
mas o menino crescera)

quarta-feira, outubro 11, 2006

domingo, outubro 01, 2006

antonio berni
quanto tempo ainda temos
até que a alegria de menino cresça
e desaprenda como era gostoso brincar
com a alma descalça
MOLHADA DE CHUVA?

domingo, setembro 17, 2006

yolanda velazquez

as roupas
guardam você
na ausência
no adeus
na morte


vestem você
de medo
de pesares
de angústia

despem você
de sonhos
de esperança
de amanhãs

(avessas aos sons
,imunes às palavras
,dizem apenas
o que precisam dizer)

quarta-feira, setembro 06, 2006

eu queria poder sentir
você dando-me um cheirinho
e dizendo boa-noite
só mais uma vez, mãe
antes que a memória me traia
e faça da senhora apenas saudade
mergulhada no gosto amargo
que a morte deixou

segunda-feira, agosto 28, 2006


chris lawrence
(pros meus amiguinhos
que feito eu
cresceram
pra não mais existirem)

a bola quebrou a janela da vizinha
que nos praguejou “moleques duma figa”
enquanto corríamos às gargalhadas
pra roubar goiaba do quintal alheio
ou planejar um mundo mágico
que nem sonhou breton

dia desses encontrei o zé galinha
que tinha chutado a bola naquela janela
e gargalhado mais que todos juntos
relembramos outras historinhas
como quem abre um velho baú
e depois fecha por querer

um aperto de mãos selou o encontro
que também foi uma despedida
e fomos embora sei lá pra onde
com a alma envelhecida
os ossos mudos

e a boca cheia de nada


domingo, agosto 20, 2006

david chung


- tá chovendo, filhinho.
é melhor ficar dentro de casa.
chama o teu irmão pra brincar...

(e nós brincamos)

como era bom
desenhar alegria
no céu de trovoadas

terça-feira, agosto 08, 2006


- todas essas cores, de onde vêm?
- estão em nossos olhos.
- como, se não as vejo quando me olho no espelho?
- é que tem que ser dia de chuva e precisamos fazer silêncio.
- sempre?
- não, nem sempre.
- quando mais, então?
- às vezes, basta um sorriso para que cheguem novas cores, estranhas cores, e todas as dores somem para bem longe.
- eu não sei sorrir desse jeito...
- assim nasce a felicidade.
- dentro de nós?
- está vendo aquela joaninha lá no meio da plantação?
- sim, sim! e é tão pequena e parece nem ligar para nada, só para as nuvens.
- percebeu?você está sorrindo e das suas mãos saem aquarelas.
- minhas mãos, nunca as tinha sentido assim! elas estão com gosto de infância.
- era o que te faltava. já podes ir e ser feliz.
- mas, você é só um espantalho. como poderia saber?
- eu guardo sonhos debaixo do meu chapéu.
- você não é feito de palha? por que guardar sonhos? não seria melhor sonhar?
- tenho medo quando a noite emudece o horizonte e eu fico aqui, só.
- e as estrelas cadentes, você não as vê?
- há muito não olho para o céu.
- mas, você ensinou-me a sorrir...
- não, não! o sorriso sempre esteve contigo, nos seus ossos, nas suas entranhas.
- e em você, não?
- resta-me pouco, o sol está cansado de mim.
- posso anoitecer ao seu lado, só essa vez?
- veja, o sol está partindo e sequer dirá adeus...
- seus olhos são tristes.
- a tristeza me é companheira.
- não desista...você ainda pode sorrir.
- seus olhos! não conhecia as cores que agora saltam dos seus olhos.
- você as vê?
- sim, bem aqui...bem perto...
- você está sorrindo!
- eu estou sonhando?
- estamos juntos...e felizes!
- até quando?
- pouco importa, estamos juntos.
- girassóis...
- eu os amanhecerei, ao seu lado.

terça-feira, agosto 01, 2006



tatuzinho-de-jardim
e folhas quase mortas
guardando estações outras
para ninguém, nunca mais
(a terra oferenda suas breves canções)
.
o quintal tinha formigas
que pareciam preguiçosas
quando a chuva molhava as tardes
brincadas dentro de casa
(paredes traziam outras margens, risonhas)
.
éramos quatro
mas barulhávamos por muitos
e crescíamos sem saber
que a vida um dia aporta adulta e sem cor
(tristes são as mãos que não sabem sonhar)

quinta-feira, julho 27, 2006


tu crês
mas num só
instante
a voz que te acompanha
PARTE
o amor
como se fosse gravetos
jogados no chão dum parque
numa tarde vazia
de verão

sexta-feira, julho 14, 2006

patrice besso

é só mais um dia no paraíso
-você deveria saber
-
que pra tudo existe um fim
que a felicidade dura só um instante
que a dor tem olhos fundos
& o medo planta árvores
de caules retorcidos
na janela baldia
dos nossos corações

é só o último dia no paraíso
-você deveria saber
-
que todo conto-de-fada um dia amarelece
que o amor um dia vira cinzas
que a esperança tem dedos atrofiados
& a realidade finca lágrimas
de um adeus esmigalhado
na soleira empoeirada
dos nossos sonhos

domingo, julho 09, 2006


marc chagall
para amélia pais
a noite
(nós sabíamos)
era mais silenciosa
quando sonhávamos
porque os anjos esqueciam
as ordens caducas de deus
e brincavam de pintar
estrelas azuis

terça-feira, julho 04, 2006


o céu estava azul
as nuvens
brancas-algodão
a saudade apertava o peito
a ausência encharcava a alma
& da janela do quarto
o menino sonhava
voar bem alto
feito urubu
pra alcançar a lua
e a doce menina
que debaixo do jambeiro
brincava de roda
rabiscava anjos
e que um dia
não tão longe assim
amanheceria
os seus girassóis

quarta-feira, junho 28, 2006

evelyn rivas

no pequeno pátio
de ladrilhos cor-de-vinho
da nossa casa bretoniana
lá no bairro mendara

NAS TARDINHAS

guardadoras das minhas memórias
sempre que a chuva desabava
cheia de ventos ruidosos &
de nuvens escuras

QUE SABIAM DA GENTE

bom mesmo era escorregar
de barriga pra baixo
bem depressa e sem cuidado
pra que tudo fosse mais divertido &

DIVERTIDO ERA

[brincadeira sem nome
dos irmãos-meninos
sorrindo sem parar]

sexta-feira, junho 16, 2006



Era no quarto do meio
Que os brinquedos ficavam espalhados
Não havia poeira
Nem prateleiras
Só felicidade
Por todo lugar

domingo, junho 11, 2006


a impossibilidade de ti
desnutre meus ossos
sufoca meu horizonte
põe mãos frias sobre o meu peito
e marca o tempo que me resta
como quem registra um óbito
num livro tristonho qualquer

quinta-feira, junho 08, 2006




hoje
o que me cabe
o que me foge
o que me pontua
são memórias
imagens desfocadas
um terno de estrelas
palavras soltas
e o sol poente marcando
a tua ausência de mim
a tua ausência de mim
a tua ausência de mim