sábado, agosto 07, 2010

recuo no tempo.
minha mãe morreria aos trinta e três anos
escuto-me perguntar
como pudemos deixar a casa vazia,
agora que éramos três meu irmão meu pai e eu.

[o que sobrevive nos olha direto nos olhos]

doce irmão,
falta-nos os brinquedos o jardim o jambeiro lá do quintal
e um punhado de orações que rezaríamos mesmo quando adultos
não fosse deus, silêncio.

pai,
a quem mais pediríamos carinho?

quinta-feira, junho 17, 2010



nós, os homens ocos
porque de sombras alimentados
nem bichos nem coisas ou fatos
aqueles que crescem parindo silêncio
.

nós, irmãos em mortalha
porque à mesa desservimos a razão
nem pios nem límpidos ou amados
aqueles que murmuram de pé
.

.
[longe...bem longe.]

.
ao rubens da cunha
.
imagem de josé luis corella

terça-feira, maio 25, 2010




lembro do enterro de meu avô

era manhã e um bem-te-vi soava tristeza

interrompida por breves momentos de silêncio

enquanto besouros e formigas

que antes eu via no jardim

caminhavam a esmo sobre túmulos e folhas secas

como se não guardassem as memórias que jaziam ali

.

imagem de redon

quinta-feira, abril 08, 2010

amanhã iremos ao zoológico
era o segundo domingo de abril
você encantou-se com um cata-vento
eu gostei mais dos hipopótamos
.
fazia sol e ventava frio
comemoraremos teu aniversário
e nada mais há no mundo
que não estivesse todo ali

sábado, março 20, 2010

imagem de sarah petruziello
.
à marie

.

cavava fundo, bem fundo

até não haver mais sinal algum

das nuvens ou do céu azul

que era pra ninguém descobrir

serem feitos de lágrimas

os fantasmas que a espiavam menina

terça-feira, janeiro 26, 2010



- a noite aproxima-se e só o que consigo fazer é esperar...

- chegamos tão longe assim?

- felicidade termina, sabíamos desde o início. mas, o que resta depois?

- as crianças brincam no quintal. em nossas mãos havia pequenos girassóis, lembra?

- dormir inquieta quando não cabemos em nossos sonhos.

- abraçar você costumava trazer-me de volta.

- envelheceremos assim. porque assim tem que ser.
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imagem de ada rosa rivera

segunda-feira, janeiro 18, 2010



- não volte lá. todos partiram.

- há conchinhas brancas espalhadas diante de nós, vês?

- amortalharam os sorrisos dentro de caixas de papelão e deixaram tudo pra trás.

- nelas escuto o mar. dizem sê-lo azul, dum azul mais azul que o céu.

- estamos sós...tenho medo e minhas mãos já não alcançam o horizonte.

- porque azul dele acolherei as cantigas. e assim amanheceremo-nos feito irmãos.
imagem de derrick grant

sábado, janeiro 02, 2010



a rua
por onde corria menino
envelheceu com a casa
o jambeiro o pé de acácia

e as brincadeiras que ontem coloriam
os dias de chuva e de sol
hoje fantasmam o sono
de um homem só



imagem de sarah petruziello

segunda-feira, dezembro 21, 2009

amanhecemos, mãe...
e o céu recortado por pássaros ruidosos
era a última lembrança de que
não havia ninguém à nossa volta

segunda-feira, setembro 21, 2009


escavarei a ausência

até meus dedos cansarem

de buscar algo capaz de trazer à superfície

não mais essa dor que me consome as entranhas

e sim a doce saudade de ti

a quem sei não verei mais





domingo, agosto 23, 2009

.
invade-me o frio
[essa exatidão inconclusa]
de ter-me parido às avessas
porque filho teu cri-me
porque erro teu sangrarei
.

quarta-feira, julho 15, 2009


imagem de dorothea tanning
;
se hoje partes
amigo
o que diremos
nós
que acolhidos
ficamos
pela doce fundura
da morte?
.

domingo, abril 26, 2009

imagem de carrie ann baade
.
as memórias que teço
souberam-me antes
d’eu podê-las ninar

sábado, março 28, 2009

imagem de carrie ann baade
.
não se misturavam

o azul do choro contido

o purpúreo das nuvens poentes

o amarelecer das cirandas sem crianças pra girar

aos olhos turvos e frios do homem de palha

porque suas mãos aprenderam a traçar planos

deixando a felicidade sem ter com quem brincar

quarta-feira, março 04, 2009

sábado, fevereiro 21, 2009

imagem de sarah petruziello
ao rubens da cunha

chamamentos da chuva
à casa da minha infância
retornaram num piscar de olhos
[influxos de sanidade]
lugar onde não caibo mais

terça-feira, janeiro 27, 2009



imagem de luis lorenzana
.
.
esse homem
sangra
traz nas memórias
pedaços de manhãs
onde ser feliz
era um lugar
imune ao tempo

quarta-feira, janeiro 14, 2009


imagem de yolanda velázquez
.
..
volto ao quintal

pra saber-nos lá

brincando debaixo

do velho jambeiro


logo mais a mamãe

dirá que é hora

de tomarmos banho

e depois almoçar


volto ao quintal

guardador de memórias

pra que essa vida deserta

não nos arranque de lá



quinta-feira, janeiro 01, 2009



porque éramos crianças
a chuva do início de todas as tardes
encharcava-nos de sorrisos
e aquarelava um arco-íris infinito no céu


imagem de roberto rodríguez

sexta-feira, novembro 14, 2008


o anoitecer era miúdo

e pirilampeava aos nossos olhos

todas as vezes que a vovó

contava estórias de assombração

sentada em sua cadeira de embalo

no corredor da velha casa do outeiro

desaparecida em meio aos escombros

dos meninos que fomos um dia