domingo, março 23, 2008


acabamos antes do tempo
recolhidas, as memórias
encaixotados, os brinquedos
amedrontados, os sonhos
crescida, a infância
adultos, os meninos
adulterados
...adulterados

sábado, março 08, 2008


junte os brinquedos
jogados assim pelo chão
empoeiram os amanhãs
deixando no peito da gente
um vazio que não some mais


imagem de antonio berni


segunda-feira, fevereiro 18, 2008


barquinhos de papel
trovoada eram

às margens do nascente
chuva a sorrir nosso nome

imagem de yolanda velazquez

segunda-feira, fevereiro 04, 2008




nasceram separados por dois anos e treze dias, os irmãos. juntos inventavam mundos que cabiam em caixinhas de fósforo e lá os deixavam crescer por três dias e quatro noites para então soltá-los no meio dos pirilampos sem que ninguém percebesse que dali surgiam estrelas cadentes. e um punhado de sonhos.


imagem de josé león

terça-feira, dezembro 25, 2007


- o meu brinquedo é o mais bonito!
- não, é o meu!
- pai! pai! qual o mais bonito?
- não é o meu, mãe?
- parem de brigar por bobagem.
- vocês são irmãos, e irmãos não brigam.
- tá na hora de vocês dois irem dormir.
- bença mãe.
- bença, pai.

(na manhã seguinte, nada era mais bonito do que a felicidade dos irmãos, juntos, a brincar)


imagem de david cheung



domingo, dezembro 16, 2007


- você já foi criança?
- costumava brincar na chuva
- coloria nuvens?
- desenhava sonhos para não sabê-los morrer
- medo, é isso?

- solidão. apenas solidão.
imagem de antonio berni

domingo, dezembro 02, 2007

imagem de yolanda velazquez


escuta:
memórias desfeitas
são vaga-lumes sumindo na noite
e você já não sabe mais
como olhar para trás

domingo, novembro 04, 2007


como se eu pudesse trazer de volta
as manhãs de domingo cheias de nuvens espalhadas
pelo azul do céu que nos protegia enquanto de bicicleta rodávamos
as ruas estreitas da cidade-velha sem ligar pra mais nada
que não fosse a felicidade de estarmos conosco...
hoje, deitei em minha cama e dormi em paz

imagem de david cheung

sábado, outubro 06, 2007

acordou de um sonho
no qual menino brincava
misturando cores
donde pirilampos, estrelas
e gafanhotos enluarados
dos seus dedos surgiam
colorindo o mundo todo
de cores que não desbotavam


imagem de myrna ledesma

domingo, setembro 23, 2007

pra fabíola c.

quando alcanço o fim de tarde com cheiro de sol e de nuvens
que em minhas memórias sobrevive ao ranger do tempo,
estamos nalgum lugar só nosso,
juntos a sorrir-nos o romper da primavera

e mesmo que venham outras estações e envelheçam as esperanças
e murchem as flores e desapareça do céu o vôo das andorinhas
nos abraçaremos naquela tarde poente
anoitecendo o sonho azul que guardamos conosco

segunda-feira, setembro 03, 2007


escutou um choro
que parecia um uivo
apenas mais triste
embranquecido e vazio
(esperançar arrancado do ventre
à espera do sol nascente)
imagem de Ismael nery

sábado, agosto 04, 2007


eu costumava ser aquele menino idiota
que olha pros dois lados da rua antes de atravessar
e reza pro anjo da guarda antes de dormir
mas que nunca acreditou em papai noel
embora procurasse estrelas cadentes
no meio da noite lá no chão do quintal


imagem de myrna ledesma

segunda-feira, julho 23, 2007



fim de tarde dissipa-se
em azul
no empalidecer de ti que ficou

há ruas vazias estreitando
a saudade
onde passos miúdos imaginam alguém

imagem de Oswaldo Guayasamín

segunda-feira, julho 02, 2007

pelas ladeiras
descem poesias

chuva e lembranças
escoando a infância do velho palhaço que desistiu do picadeiro

[existe um abandono próprio àqueles que insistem em sonhar]

é com o sol poente que despertam estrelas

é no silêncio azul que guardamos nossas tristezas

é no sorriso trôpego que resistimos ao penar
é escondido em mim mesmo

que de vermelho pinto o nariz

dou piruetas
invento cambalhotas e tropeço no destino

brincando de ser feliz
como o palhaço criança
um dia soube brincar


imagem de chirico

quinta-feira, maio 31, 2007



o quarto está vazio
dum vazio habitado
por assombros que não partem

(ecos
da solidão)

quinta-feira, maio 24, 2007


no quarto

segredos

que pai e mãe

não saberiam


no quarto

brincadeiras

que só aos irmãos pertenciam

terça-feira, maio 08, 2007


com os pés molhados de chão molhado de chuva
cantigas-de-roda, éramos sorrisos
irmãos e primos fazendo da vida
um pedacinho de sonho
bom de sonhar.

quinta-feira, abril 05, 2007


certo dia lembrei
que meu irmão
era mais moleque que eu
e corria mais
e sorria mais
e vivia machucado de tanto cair
por ser tão assim
mais criança que eu
e eu
ficava com o silêncio
admirava os pedacinhos de sol
que poentes escapavam às estripulias

e coloriam das cigarras o cantar

sexta-feira, março 23, 2007


no céu azul
pintado na minha infância
tardes findavam
junto ao canto das cigarras

alumiadas de sol

domingo, março 04, 2007


recolhi os carrinhos de plástico
os soldadinhos do forte-apache
guardei-os no cesto de brinquedos
pra não brincá-los mais
naquela que foi a última manhã

na qual soube de mim, criança
imagem de alejandro asencio