quinta-feira, maio 31, 2007



o quarto está vazio
dum vazio habitado
por assombros que não partem

(ecos
da solidão)

quinta-feira, maio 24, 2007


no quarto

segredos

que pai e mãe

não saberiam


no quarto

brincadeiras

que só aos irmãos pertenciam

terça-feira, maio 08, 2007


com os pés molhados de chão molhado de chuva
cantigas-de-roda, éramos sorrisos
irmãos e primos fazendo da vida
um pedacinho de sonho
bom de sonhar.

quinta-feira, abril 05, 2007


certo dia lembrei
que meu irmão
era mais moleque que eu
e corria mais
e sorria mais
e vivia machucado de tanto cair
por ser tão assim
mais criança que eu
e eu
ficava com o silêncio
admirava os pedacinhos de sol
que poentes escapavam às estripulias

e coloriam das cigarras o cantar

sexta-feira, março 23, 2007


no céu azul
pintado na minha infância
tardes findavam
junto ao canto das cigarras

alumiadas de sol

domingo, março 04, 2007


recolhi os carrinhos de plástico
os soldadinhos do forte-apache
guardei-os no cesto de brinquedos
pra não brincá-los mais
naquela que foi a última manhã

na qual soube de mim, criança
imagem de alejandro asencio

domingo, fevereiro 18, 2007


belém
fim de tarde
relâmpago anunciando
CHUVA
logo mais as ruas estarão desertas
e nas praças desabrigadas de cantigas
enxugarei a saudade do menino
perdido na lonjura do meu peito

terça-feira, janeiro 30, 2007



a casa tinha um corredor enorme
que levava ao quintal
onde encontrávamos saúvas, embuás e joaninhas
era tão bom imaginar o que o silêncio
de cada um sonhava
para então sonharmos juntos

se queríamos brincar de desenho
as janelas sabiam
a hora certa de fazerem-se brancas nuvens
mas era da chuva que mais gostávamos
porque ela trazia o cheiro do céu
só para nos ensinar a voar

domingo, janeiro 21, 2007

ana gonzález prieto
saudade
desenhou nuvens onde havia tristeza
e logo se esvaiu toda a dor:
ignoremos do tempo os traços caducos
deixemos para trás os planos precisos
respiremos aquilo que vive mergulhado
na loucura do estranho mundo de nós dois

– minha prece entoada com fervor –

(um dia ainda seguro as tuas mãos
e descalços caminhemos
rumo à nossa casa,
menina que eu amo)

segunda-feira, janeiro 15, 2007


sob o céu que se recusava a descer
e escutar-nos os desejos entrelaçados à alma
não desistíamos de nenhum de nossos sonhos
e contávamos sorrindo, estrelas azuis
seguindo de todo indiferentes ao tempo
pequeno demais para conter a felicidade
de simplesmente estarmos ali
...

segunda-feira, janeiro 01, 2007

isabel nadal

ao neto, meu primo


você sorriu os brinquedos
que um dia crianças
juntos brincamos
ou deixou-os envelhecerem
trancafiados nos sonhos
outrora sonhados?

sábado, dezembro 09, 2006

noin rivera

o carrossel ainda roda
gigante
sob o céu a brincar meus pés
de quintal por onde caminham
formigas, besouros, gafanhotos
e caem flores do jambeiro
alumiando nuvens nas quais desenhava
um mundo que não tinha medo de sorrir
(menino descobrindo poesia)

domingo, novembro 19, 2006

domingo, novembro 12, 2006


abrindo o baú
deixaram estrelas de fora
naquele amanhã desfigurado
onde era tudo sofreguidão

segunda-feira, outubro 30, 2006


a janela do meu quarto
guardava as cores o céu
sempre que anjos desciam
e comigo brincavam
do que a gente chamava
FELICIDADE

segunda-feira, outubro 23, 2006


assobiava memórias baldias
num canto de quarto
solitário demais
para ser notado
(era tarde pra descobrir,
mas o menino crescera)

quarta-feira, outubro 11, 2006



redon
pintou o nariz
vermelho: a cor
felicidade não veio
cinzas demais na ilusão do poeta

domingo, outubro 01, 2006

antonio berni
quanto tempo ainda temos
até que a alegria de menino cresça
e desaprenda como era gostoso brincar
com a alma descalça
MOLHADA DE CHUVA?

domingo, setembro 17, 2006

yolanda velazquez

as roupas
guardam você
na ausência
no adeus
na morte


vestem você
de medo
de pesares
de angústia

despem você
de sonhos
de esperança
de amanhãs

(avessas aos sons
,imunes às palavras
,dizem apenas
o que precisam dizer)

quarta-feira, setembro 06, 2006

eu queria poder sentir
você dando-me um cheirinho
e dizendo boa-noite
só mais uma vez, mãe
antes que a memória me traia
e faça da senhora apenas saudade
mergulhada no gosto amargo
que a morte deixou