segunda-feira, janeiro 18, 2010



- não volte lá. todos partiram.

- há conchinhas brancas espalhadas diante de nós, vês?

- amortalharam os sorrisos dentro de caixas de papelão e deixaram tudo pra trás.

- nelas escuto o mar. dizem sê-lo azul, dum azul mais azul que o céu.

- estamos sós...tenho medo e minhas mãos já não alcançam o horizonte.

- porque azul dele acolherei as cantigas. e assim amanheceremo-nos feito irmãos.
imagem de derrick grant

sábado, janeiro 02, 2010



a rua
por onde corria menino
envelheceu com a casa
o jambeiro o pé de acácia

e as brincadeiras que ontem coloriam
os dias de chuva e de sol
hoje fantasmam o sono
de um homem só



imagem de sarah petruziello

segunda-feira, dezembro 21, 2009

amanhecemos, mãe...
e o céu recortado por pássaros ruidosos
era a última lembrança de que
não havia ninguém à nossa volta

segunda-feira, setembro 21, 2009


escavarei a ausência

até meus dedos cansarem

de buscar algo capaz de trazer à superfície

não mais essa dor que me consome as entranhas

e sim a doce saudade de ti

a quem sei não verei mais





domingo, agosto 23, 2009

.
invade-me o frio
[essa exatidão inconclusa]
de ter-me parido às avessas
porque filho teu cri-me
porque erro teu sangrarei
.

quarta-feira, julho 15, 2009


imagem de dorothea tanning
;
se hoje partes
amigo
o que diremos
nós
que acolhidos
ficamos
pela doce fundura
da morte?
.

domingo, abril 26, 2009

imagem de carrie ann baade
.
as memórias que teço
souberam-me antes
d’eu podê-las ninar

sábado, março 28, 2009

imagem de carrie ann baade
.
não se misturavam

o azul do choro contido

o purpúreo das nuvens poentes

o amarelecer das cirandas sem crianças pra girar

aos olhos turvos e frios do homem de palha

porque suas mãos aprenderam a traçar planos

deixando a felicidade sem ter com quem brincar

quarta-feira, março 04, 2009

sábado, fevereiro 21, 2009

imagem de sarah petruziello
ao rubens da cunha

chamamentos da chuva
à casa da minha infância
retornaram num piscar de olhos
[influxos de sanidade]
lugar onde não caibo mais

terça-feira, janeiro 27, 2009



imagem de luis lorenzana
.
.
esse homem
sangra
traz nas memórias
pedaços de manhãs
onde ser feliz
era um lugar
imune ao tempo

quarta-feira, janeiro 14, 2009


imagem de yolanda velázquez
.
..
volto ao quintal

pra saber-nos lá

brincando debaixo

do velho jambeiro


logo mais a mamãe

dirá que é hora

de tomarmos banho

e depois almoçar


volto ao quintal

guardador de memórias

pra que essa vida deserta

não nos arranque de lá



quinta-feira, janeiro 01, 2009



porque éramos crianças
a chuva do início de todas as tardes
encharcava-nos de sorrisos
e aquarelava um arco-íris infinito no céu


imagem de roberto rodríguez

sexta-feira, novembro 14, 2008


o anoitecer era miúdo

e pirilampeava aos nossos olhos

todas as vezes que a vovó

contava estórias de assombração

sentada em sua cadeira de embalo

no corredor da velha casa do outeiro

desaparecida em meio aos escombros

dos meninos que fomos um dia



sexta-feira, setembro 26, 2008


era uma tarde chuvosa
chorávamos eu e meu irmão
mas a dor não ia embora
nem a chuva queria parar

e nós que éramos criança
não conseguíamos entender por que

deus fechou os olhos de nossa mãe
e desse silêncio não mais a fez despertar

sexta-feira, setembro 05, 2008


porque corríamos sem margem

brincando de chuva em dias de sol

éramos nascente de rios

pedaço encantado de mundo

onde sonhos podiam desaguar



quinta-feira, julho 10, 2008






já não estávamos mais tristes ou amargurados


nossos olhos e mãos moldavam nuvens e céus


enquanto brincávamos imunes ao passar dos anos


em nosso imenso mundo pintado em azul


que hoje dorme no fundo do peito


sem que saibamos um jeito de fazê-lo acordar



imagem de victor chaca

domingo, maio 25, 2008

era menino
deitado sobre as folhas
dum tempo respiradouro de árvore
refúgio, lugar que esteve lá
incontido nas dobraduras
que o outono iria deixar


imagem de yolanda velazquez

terça-feira, maio 13, 2008


lambiam palavras
fazendo do céu
lugar de sonhares
infinitude escrita
por mãos radiantes
revoar de andorinhas
famintas de sol

quinta-feira, abril 10, 2008







- por que a casa está vazia de tanto silêncio? por que a mamãe não está aqui pra dizer boa-noite?
- precisamos dormir, que o anjo da guarda virá.
- sonharemos com a felicidade de antes?
- o que sei sobre os sonhos?
- você é meu irmão mais velho.
- eu tenho medo de não mais saber sonhar. já é tarde e precisamos dormir, é só o que sei.
- se não sabes, o que saberei?
- os sonhos morrem.
- foram embora com a nossa mãe?
- os sonhos ficam.
- dentro dos olhos, é isso?
- nas memórias. e nos sorrisos que chegam com elas.
- feito ciranda?
- feito arco-íris. pirilampos. e o luar.
imagem de m. ledesma