quarta-feira, janeiro 14, 2009


imagem de yolanda velázquez
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volto ao quintal

pra saber-nos lá

brincando debaixo

do velho jambeiro


logo mais a mamãe

dirá que é hora

de tomarmos banho

e depois almoçar


volto ao quintal

guardador de memórias

pra que essa vida deserta

não nos arranque de lá



quinta-feira, janeiro 01, 2009



porque éramos crianças
a chuva do início de todas as tardes
encharcava-nos de sorrisos
e aquarelava um arco-íris infinito no céu


imagem de roberto rodríguez

sexta-feira, novembro 14, 2008


o anoitecer era miúdo

e pirilampeava aos nossos olhos

todas as vezes que a vovó

contava estórias de assombração

sentada em sua cadeira de embalo

no corredor da velha casa do outeiro

desaparecida em meio aos escombros

dos meninos que fomos um dia



sexta-feira, setembro 26, 2008


era uma tarde chuvosa
chorávamos eu e meu irmão
mas a dor não ia embora
nem a chuva queria parar

e nós que éramos criança
não conseguíamos entender por que

deus fechou os olhos de nossa mãe
e desse silêncio não mais a fez despertar

sexta-feira, setembro 05, 2008


porque corríamos sem margem

brincando de chuva em dias de sol

éramos nascente de rios

pedaço encantado de mundo

onde sonhos podiam desaguar



quinta-feira, julho 10, 2008






já não estávamos mais tristes ou amargurados


nossos olhos e mãos moldavam nuvens e céus


enquanto brincávamos imunes ao passar dos anos


em nosso imenso mundo pintado em azul


que hoje dorme no fundo do peito


sem que saibamos um jeito de fazê-lo acordar



imagem de victor chaca

domingo, maio 25, 2008

era menino
deitado sobre as folhas
dum tempo respiradouro de árvore
refúgio, lugar que esteve lá
incontido nas dobraduras
que o outono iria deixar


imagem de yolanda velazquez

terça-feira, maio 13, 2008


lambiam palavras
fazendo do céu
lugar de sonhares
infinitude escrita
por mãos radiantes
revoar de andorinhas
famintas de sol

quinta-feira, abril 10, 2008







- por que a casa está vazia de tanto silêncio? por que a mamãe não está aqui pra dizer boa-noite?
- precisamos dormir, que o anjo da guarda virá.
- sonharemos com a felicidade de antes?
- o que sei sobre os sonhos?
- você é meu irmão mais velho.
- eu tenho medo de não mais saber sonhar. já é tarde e precisamos dormir, é só o que sei.
- se não sabes, o que saberei?
- os sonhos morrem.
- foram embora com a nossa mãe?
- os sonhos ficam.
- dentro dos olhos, é isso?
- nas memórias. e nos sorrisos que chegam com elas.
- feito ciranda?
- feito arco-íris. pirilampos. e o luar.
imagem de m. ledesma

domingo, março 23, 2008


acabamos antes do tempo
recolhidas, as memórias
encaixotados, os brinquedos
amedrontados, os sonhos
crescida, a infância
adultos, os meninos
adulterados
...adulterados

sábado, março 08, 2008


junte os brinquedos
jogados assim pelo chão
empoeiram os amanhãs
deixando no peito da gente
um vazio que não some mais


imagem de antonio berni


segunda-feira, fevereiro 18, 2008


barquinhos de papel
trovoada eram

às margens do nascente
chuva a sorrir nosso nome

imagem de yolanda velazquez

segunda-feira, fevereiro 04, 2008




nasceram separados por dois anos e treze dias, os irmãos. juntos inventavam mundos que cabiam em caixinhas de fósforo e lá os deixavam crescer por três dias e quatro noites para então soltá-los no meio dos pirilampos sem que ninguém percebesse que dali surgiam estrelas cadentes. e um punhado de sonhos.


imagem de josé león

terça-feira, dezembro 25, 2007


- o meu brinquedo é o mais bonito!
- não, é o meu!
- pai! pai! qual o mais bonito?
- não é o meu, mãe?
- parem de brigar por bobagem.
- vocês são irmãos, e irmãos não brigam.
- tá na hora de vocês dois irem dormir.
- bença mãe.
- bença, pai.

(na manhã seguinte, nada era mais bonito do que a felicidade dos irmãos, juntos, a brincar)


imagem de david cheung



domingo, dezembro 16, 2007


- você já foi criança?
- costumava brincar na chuva
- coloria nuvens?
- desenhava sonhos para não sabê-los morrer
- medo, é isso?

- solidão. apenas solidão.
imagem de antonio berni

domingo, dezembro 02, 2007

imagem de yolanda velazquez


escuta:
memórias desfeitas
são vaga-lumes sumindo na noite
e você já não sabe mais
como olhar para trás

domingo, novembro 04, 2007


como se eu pudesse trazer de volta
as manhãs de domingo cheias de nuvens espalhadas
pelo azul do céu que nos protegia enquanto de bicicleta rodávamos
as ruas estreitas da cidade-velha sem ligar pra mais nada
que não fosse a felicidade de estarmos conosco...
hoje, deitei em minha cama e dormi em paz

imagem de david cheung

sábado, outubro 06, 2007

acordou de um sonho
no qual menino brincava
misturando cores
donde pirilampos, estrelas
e gafanhotos enluarados
dos seus dedos surgiam
colorindo o mundo todo
de cores que não desbotavam


imagem de myrna ledesma

domingo, setembro 23, 2007

pra fabíola c.

quando alcanço o fim de tarde com cheiro de sol e de nuvens
que em minhas memórias sobrevive ao ranger do tempo,
estamos nalgum lugar só nosso,
juntos a sorrir-nos o romper da primavera

e mesmo que venham outras estações e envelheçam as esperanças
e murchem as flores e desapareça do céu o vôo das andorinhas
nos abraçaremos naquela tarde poente
anoitecendo o sonho azul que guardamos conosco

segunda-feira, setembro 03, 2007


escutou um choro
que parecia um uivo
apenas mais triste
embranquecido e vazio
(esperançar arrancado do ventre
à espera do sol nascente)
imagem de Ismael nery